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Poucas alfaiatarias ainda restam para contar história na cidade de Imperatriz (MA). A arte da costura sob medida vem perdendo espaço desde a ascensão das grandes confecções, ateliês de malharias e das lojas de roupas prontas para vestir. Mas as que ainda resistem guardam trajetórias de paixão e muito trabalho para tecerem seu futuro. Nesta reportagem especial, os alfaiates Adevaldo Fernandes, Deusamar Lopes vulgo seu “Brasília”, Claudines Vieira, Floriano Nascimento e Valdir Rodrigues são os personagens que costuram essa memória. E ainda voltaremos ao passado para retomar as linhas da história da Agulha de Ouro, a maior alfaiataria de Imperatriz.
O comércio varejista de vestuário de Imperatriz é forte o suficiente para empregar um percentual positivo de 6,23% a mais de pessoal em 2022, segundo dados do Boletim Econômico da ACII (Associação Comercial e Industrial de Imperatriz). No Brasil, de acordo com a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e da Confecção) e o IEMI (Instituto de Estudos e Marketing Industrial), em um período de 2017 a 2022, o setor do vestuário teve queda de volume de produção de -16,6% em roupas sociais, ou de alfaiataria. Porém, a área de produção de roupas, como um todo, registrou um aumento de 0,5% em 2022, o que demostra um valor de produção de R$ 130,5 bilhões. As roupas masculinas adulta, ainda segundo o estudo, tiveram uma participação de 31,1% sobre o volume produzido.
Se de um lado a alfaiataria resiste como um setor no qual a roupa é feita milimetricamente sob medida, de outro existem as confecções, que seguem certa padronização de tamanhos. A ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) lançou, em 2021, uma tabela que visa padronizar as dimensões e os diversos formatos de corpos de roupas femininas. A norma foi atualizada para NBR 16933, que não engloba e nem discute as peças masculinas.
Com a popularização do terno no fim do século XVIII pelos dândis ingleses, com atenção especial para Breau Brummel, que exalava elegância no clima chique de Londres, a peça se tornou sinônimo de status social. A capital da Inglaterra ainda tem a rua Savile Row como a maior referência de moda masculina, lá estão os melhores alfaiates e lojas de terno do mundo. Desde então, muita coisa mudou, ainda mais em uma cidade do interior do Nordeste. Acompanhe, neste especial, cinco perfis de raros mestres da alfaiataria do município para conhecermos suas jornadas neste ofício que pode ter um futuro incerto e até mesmo entrar em extinção.
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Fotos: Acervo Pessoal
A renomada alfaiataria Agulha de Ouro era a maior referência em corte e costura de Imperatriz e região. O mestre alfaiate José Almeida, seu fundador, se consolidou como um dos mais prestigiados alfaiates da cidade, sendo até mesmo premiado em alguns eventos que destacavam os melhores do ano no setor de comércio. Ele, infelizmente, morreu em 29 de janeiro de 2011, vítima de um AVC.
Natural de São João dos Patos (MA), José Almeida começou ainda criança a tomar gosto pela arte de costurar. Isso porque o pai era alfaiate e ele seguiu o mesmo ofício com uma presteza sem igual. Casou-se em fevereiro 1969 com Ana Mirtes Costa Fernandes e dessa união tiveram duas filhas e um filho, que não seguiram a profissão de José.
Dois anos depois, em 1971, ele seguiu com dona Ana Mirtes para trabalhar na construção da famosa Rodovia Transamazônica, como apontador de obras pela empresa de engenharia Mendes Junior. Eles ficavam em acampamentos montados e então José Almeida começou a fazer e vender roupas nesses locais. Ganhou renome e referência no ramo, sendo inclusive procurado por grandes políticos de Brasília para fazer seus ternos e por pessoas até mesmo do exterior.
Em junho de 1974 a família Almeida chegou em Imperatriz e inaugurou a Agulha de Ouro. A empresa então começou a se popularizar e chegou ao ponto de ter cerca de 18 funcionários, que trabalhavam para entregar a melhor costura da cidade. Uma curiosidade é que o estabelecimento não levava bem esse nome. José Almeida comprou o local, que na verdade se chamava Águia de Ouro. Mas ele preferiu registrar de outra forma, então trocou o águia pelo agulha, bem mais apropriado para uma alfaiataria.
Inclusive, dois dos cinco alfaiates destaques desta reportagem tiveram o privilégio de trabalhar com ele e aprender as mais diversas técnicas da alfaiataria. Adevaldo Fernandes e Valdir Rodrigues sempre recordam durante as conversas para esse especial, os anos de trabalho e aprendizagem na Agulha de Ouro, afirmando ter sido uma verdadeira escola em suas vidas.
O estabelecimento encerrou suas atividades depois de tentativas frustradas de continuar com o legado. Em 2013 findou-se o funcionamento da Agulha de Ouro com uma trajetória marcante na história da costura de Imperatriz.
A grandiosa Agulha de Ouro

Playlist da Costura


Glossário da Alfaiataria
*Segundo os próprios alfaiates durante as entrevistas.
Aprendiz – alfaiate em começo de carreira;
Baggy – um tipo de calça mais larga;
Barguilha – abertura frontal das calças onde se tem o zíper e o botão;
Brim – tecido parecido com o jeans; forte e resistente;
Buteiro – o responsável pela reforma de peças de roupa; que faz consertos;
Calceiro – especialista em fazer calças;
Camiseiro – especialista em fazer camisas;
Casear – fazer as casas dos botões;
Carregação – nome dado às confecções que não tinham uma boa costura;
Cocota - tipo de calça apertada;
Corte Fino – costura feita sob medida, sem defeitos;
Costado - Medida feita no alto das costas, de um ombro ao outro;
Dedal – objeto usados nos dedos para não serem perfurados por agulhas;
Entretela – material que faz a estrutura de uma peça para dar suporte e encorpar as mangas e golas;
Guarnecer - Ponto para arremates internos e bainha;
Molde – formas que levam as medidas de clientes para se fazer a roupa final, geralmente feitos de papel;
Musseline – tipo de tecido leve e fino;
Overlock – máquina de costura que faz acabamentos para o tecido não desfiar;
Pespontos – técnica onde os pontos de costura ficam aparentes no tecido, ou seja, ficam visíveis pelo lado de fora;
Terno – roupa de alfaiataria composto por calça, camisa, blazer e colete;
Zig Zag – máquina de costura de fácil manuseio, também conhecida como Máquina Reta.
Bastidores

Fotos: Gustavo Vale, Igor Aguiar, Michaell Sousa e Willame Alves
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