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A localização privilegiada da alfaiataria de Adevaldo Fernandes, na rua Simplício Moreira, centro de Imperatriz, permite ao veterano boas indicações e consolidação no ramo. Seu espaço é um amplo cômodo que abriga quatro máquinas e uma grande mesa de corte na entrada. Aos fundos fica sua casa própria, onde mora com a esposa e o filho caçula. Educado e bastante preciso nas palavras, Adevaldo demonstra empolgação quando recorda sua trajetória na profissão da costura. Com o tempo resolveu batizar o local, antes chamado de “Alfaiataria e Camisaria Elite”, com o seu próprio nome, que já tinha se tornado bastante popular na cidade.
Aprendeu a costurar na sua cidade natal, São João dos Patos (MA), com 16 anos. Assim como outros meninos da época, conheceu os segredos do ofício com um homem conhecido como Nativo, hoje já falecido. “Eu que fui procurar ele, tinha época que tinha cinco ou seis adolescentes pra aprender. Ele foi o cara que ensinou muita gente nessa profissão”. Aos 64 anos de idade, Adevaldo nunca teve outra profissão além da de alfaiate. Mas já foi árbitro de futebol, viajava Maranhão adentro participando das copas regionais e competições locais. Ele admite que ser juiz era uma espécie de hobby e passatempo e, embora goste muito da atividade, não consegue mais conciliá-la com a costura.
Se aventurou a embarcar de vez na profissão quando se mudou para Brasília, em 1977, para trabalhar como contratado em uma alfaiataria. Mas em novembro de 1980 retornou para Imperatriz e passou a integrar a equipe da famosa alfaiataria Agulha de Ouro. Lá permaneceu cinco anos, mas, por conta de algumas desavenças com o dono, resolveu se dedicar apenas ao seu próprio negócio a partir de setembro de 1985. Quando saiu do emprego anterior já havia conseguido comprar três máquinas de costura. Em mais de 40 anos de profissão, desde o começo sempre teve um bom relacionamento com máquinas, tesouras e agulhas. “Eu não tive dificuldade pra aprender, em pouco tempo eu já tava montando uma peça”, afirma. Para ele, a mais complicada para confeccionar é o paletó, por conta da estrutura. Durante a conversa, um homem deixa uma sacola de encomendas para ajustes e pede o número do celular de Adevaldo, que combina o prazo de dois dias.
Ele é sincero quando critica alguns cursos que prometem ensinar o ofício de costurar. “Não adianta falar que vai fazer um curso de corte e costura. Você pode aprender na teoria, mas na prática você não aprende nada. Isso aqui se aprende é praticando”. O alfaiate não para de trabalhar um só momento, o barulho da máquina é constante. Vez ou outra, vai até a mesa de corte para marcar algum tecido com alfinetes ou giz. Durante a conversa, ele faz a barra de uma calça argumentando que tenta controlar todos os pedidos para não saírem com atraso. “Quem manda fazer tem um compromisso e a gente que pega pra fazer tem que manter o máximo de compromisso também”.
Quando o assunto é evolução, tecnologia e mudanças no mundo da costura artesanal, Adevaldo pondera que em cerca de 20 anos provavelmente já não vai mais estar trabalhando, mas acredita que o ofício possa resistir no futuro. “Alfaiate vai ficar escasso. As coisas mudaram muito. A facilidade pra você ter uma roupa de imediato é gritante”. Ele concorda, por exemplo, que o celular trouxe inúmeras vantagens para a profissão. “A maior arma que você tem hoje é o celular, ele ofertou muitas coisas. A pessoa quer me mostrar um modelo de uma roupa, ela tira uma foto e me manda. Facilita tudo”.
Ainda que haja uma certa crise interna no setor pela falta de profissionais, não falta trabalho para o alfaiate. Ele mostra várias sacolas de roupas e explica que teve que adiar a entrega de alguns pedidos para dar conta. Trabalha com apenas uma única ajudante e um rapaz que faz alguns consertos da própria casa para ele quando há bastante serviço para entregar.
Adevaldo sempre reage às provocações e críticas que algumas pessoas fazem em relação aos valores e serviços prestados. Os alfaiates lidam com um trabalho manual e artesanal que depende de muito empenho, cuidado e tempo. Certa vez, um cliente de notoriedade chegou para confeccionar algumas roupas e logo criticou o alfaiate pelo preço que cobrou das peças. O veterano não se deixou rebaixar. Esclareceu que o valor era ele quem dava e que o homem podia procurar outras opções na cidade. Três dias depois o cliente voltou e resolveu fazer o pedido com ele novamente, já que não havia conseguido um preço mais baixo. “Eu lembro que ele mandou fazer oito calças, 12 camisas e quatro bermudas. Tudo pra fazer do zero”, recorda o alfaiate, que pediu 50% do valor adiantado por ele ter lhe frustrado. Dessa vez o cliente logo fez um cheque com o orçamento e entregou sem mais reclamar.
No início, Adevaldo não recebeu muito apoio do pai, que tinha um negócio próprio de engenho de cana de açúcar e queria que os filhos se dedicassem aos estudos. Mesmo com a insistência paterna, ele seguiu costurando e não conseguiu terminar o colegial, hoje ensino médio. Fez apenas o ensino fundamental, que ele indica como antigo “ginásio”. Mesmo assim, tem uma eloquência bem pontuada quando se expressa. “As professoras sempre falavam pro meu pai que eu era muito inteligente. Em toda sala de aula que eu entrava, eu comandava. Eu sempre era o líder da sala”.
Apesar de ter idade para se aposentar por tempo de contribuição para a Previdência Social, Adevaldo diz que essa não é uma preocupação imediata. Ele afirma que continuará até quando puder e tiver condições de costurar, pois o valor da aposentadoria não é suficiente para o seu sustento. Ele comenta, frustrado, que tentaram formar um sindicato da categoria, mas por questões “políticas e partidárias” não evoluiu. Em sua opinião, a administração estava beneficiando apenas os grandes empresários de fábricas.
Há quem diga o ditado popular “Em casa de ferreiro o espeto é de pau”. Mas com Adevaldo isso é uma regra que não se segue, ele mesmo é seu próprio designer. “Eu faço 99% das roupas que visto. Até minhas calças jeans eu compro o tecido e faço. Gosto de calça social e camisa manga longa. Se abrir o meu guarda-roupa você vai encontrar de 20 a 30 camisas sociais que eu fiz”.
Ao comparar os feitios e estruturas das peças, o alfaiate demonstra que conhece bem o processo de mudança no design das roupas. Para Adevaldo, o mercado e os profissionais da costura devem se adaptar para poder acompanhar a evolução. “A diversidade é por período. Ultimamente estão usando as calças tudo coladinha. Já teve uma época da calça pantalona, cheias de pregas. Se você quiser continuar, você tem que acompanhar. Até hoje eu sou um aprendiz, todo dia tem um modelo de uma roupa diferente pra fazer.”
Eu não tive dificuldade pra aprender, em pouco tempo eu já tava montando uma peça”
Adevaldo Fernandes
O alfaiate Adevaldo Fernandes falando um pouco sobre tecnologia.
info
O ofício de alfaiate
Acervo Pessoal
Acervo Pessoal

Adevaldo Fernandes na alfaiataria Elite
Antiga fachada da Alfaiataria Elite
Fotos: Michaell Sousa
Vídeos: Michaell Sousa
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