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Valdir Rodrigues

“Ainda hoje erro, mas quando eu vejo que tô errado, eu desmancho e conserto”

Em um local estreito, pequeno, mas bem confortável e estruturado e em meio a várias lojas de roupas a seu redor, uma singela alfaiataria está localizada há mais de 25 anos na rua Luís Domingues, ao lado do teatro Ferreira Gullar. Com tons avermelhados e números de contato na fachada, a Alfaiataria Vest Lar é o local onde trabalha um dos mais requisitados e recomendados profissionais da costura de Imperatriz, Valdir Rodrigues Silva. 

Calmo e de voz suave, ele costura na máquina uma camisa com atenção minuciosa e conta aos poucos sobre a sua trajetória de alfaiate e vida pessoal. Valdir se identifica como “paletozeiro”, ou seja, aquele que é especialista em paletó. Embora não goste muito de fazer camisas, ainda assim não economiza precisão no seu feitio. Mas não nega algumas vezes ter elaborado uma peça com falhas. “Ainda hoje erro, mas quando eu erro e vejo que tô errado, eu desmancho e conserto”.

Natural de São Luís do Curu (CE), veio para o Maranhão ainda criança, nos anos 1950, morar na cidade de Santa Luzia do Tide com a família. Caçula de 10 irmãos, foi criado por eles. Perdeu a mãe com apenas cinco anos de idade e o pai de Valdir nunca foi presente na sua vida, saía para o garimpo trabalhar e ficava muito tempo sem aparecer. Em 1971 chegou em Imperatriz para tentar uma nova vida, mas nem sempre como alfaiate. “Eu tentei outras coisas. Trabalhei de roça, tirando retrato, consertando rádio”. O alfaiate mostra um aparelho de rádio que tem em seu ateliê e informa que já o desmontou algumas vezes para consertá-lo. Mas foi pela alfaiataria que sempre teve sua maior paixão. “A costura foi a melhor coisa, porque eu tenho a consciência do que eu tô fazendo”.

Desde pequeno, sempre conviveu com a arte da costura. Algumas irmãs e irmãos, tias e primos já tinham essa tradição familiar e quando criança Valdir costumava brincar entre as máquinas. Foi aí que vivenciou as primeiras inspirações na profissão. Ele se declara um autodidata, mas começou a trabalhar de vez com o ofício apenas com 26 anos de idade. Passou por algumas alfaiatarias antes de montar a sua própria, nas cidades de Cidelândia (MA) e Fortaleza (CE). Porém, ele afirma que sua grande escola foi a antiga alfaiataria Agulha de Ouro, em Imperatriz, onde trabalhou por oito anos. “A Agulha de Ouro foi a mestre, a pioneira, a melhor”. Quando saiu, já tinha duas máquinas e a primeira foi uma Zig Zag, comprada a prestação nas lojas Pernambucanas. 

Valdir conta que tentou ingressar os filhos na profissão, levou todos eles ao ateliê algumas vezes para ensinar. Uma filha até mesmo conseguiu se destacar um pouco e chegou a trabalhar em algumas fábricas de roupa, mas, com o passar do tempo, deixou a costura de lado e resolveu se envolver com outras áreas. O mais novo ainda o ajudou a fazer alguns serviços como barras de calças, contudo, preferiu seguir carreira no serviço militar. O alfaiate passou, então, seus ensinamentos para algumas pessoas das quais ele tem orgulho de ter sido mestre e poder perpetuar o ofício. “Se hoje tem alguém aí ganhando a vida foi porque eu ensinei”.

Quando alguma máquina para ou apresenta algum problema, o conserto é feito por ele mesmo. Valdir afirma que sempre foi curioso para entender como as coisas funcionam e por isso consegue resolver quando alguma delas quebra e não precisa chamar nenhum técnico.

Um cliente chega para ajustar duas camisas que serão usadas em uma sessão de fotos para o seu casamento. Ele veste as peças a fim de verificar onde deve ser o ponto certo do ajuste. Comenta que estão um pouco compridas, Valdir analisa e faz as devidas marcações. O cliente deixa a encomenda e fala que por hora não há pressa em receber. Quando sai, pergunta a melhor forma de pagamento e Valdir diz ser por Pix. 

Quando mais jovem, Valdir acordava muito cedo para trabalhar, por volta das 5 horas da manhã. Mesmo como empregado, sempre mantinha alguns clientes particulares, com encomendas exclusivas, que geravam uma renda extra. Por volta de 1992, ano de eleições municipais, Valdir ganhou mais de 10 salários mínimos costurando. Como queria continuar as obras de sua casa própria, chegou a trabalhar por 36 horas sem descanso fazendo paletós para um político. “Eu paguei o pedreiro por uma semana de serviço com o servente e ainda me sobrou dinheiro”. 

Valdir é firme ao dizer que tanto a profissão de alfaiate quanto a de sapateiro estão em crise. “A tendência é diminuir, já diminuiu bastante. Tinha muito mais gente trabalhando. Antigamente a alfaiataria só fabricava, porque não tinha necessidade de conserto. Ninguém tá mais querendo aprender”, lamenta.

Seu prestígio é tanto que sempre ganha certas gorjetas de alguns clientes pela excelência do seu trabalho. Um deles uma vez mandou fazer duas camisas. Valdir conta que deram um pouco de trabalho para concluir, e que cobrou cerca de R$ 900, mas o cliente lhe pagou mil pelo serviço ter ficado perfeito. 

Ainda mantendo um ritmo de trabalho bem puxado, Valdir chega por volta das 8 horas da manhã e sempre gosta de assistir ao Bom Dia Brasil na televisão. Vez ou outra liga seu rádio para ouvir algumas músicas até a noitinha, quando fecha a alfaiataria e volta, às 19 horas, para casa. E quando tem bastante entrega para terminar, às vezes abre aos domingos e mesmo nos feriados.








   
Em geral, muitos clientes levam os tecidos para o alfaiate ou pedem para ele comprar o melhor e executar roupas sob medida. “A calça eu faço as medidas e vou logo direto pra o tecido, traço ela e corto. As camisas eu faço os moldes, já tenho alguns, e vou remodelando nas medidas do cliente”. Experiente, Valdir aponta algumas mudanças no estilo das roupas. “Quando eu comecei eu fazia as calças pantalona, era boca de sino, foram estreitando mais. O paletó era bem maior, a manga era mais larga”. 

Valdir já pensa em ter que parar de costurar. Tanto que vem pagando o INSS a fim de consolidar uma futura aposentadoria. “Eu tenho plano de deixar, mas não vai ser já”, pondera, informando que ainda precisa reformar algumas coisas na sua casa. Agora, ele ensina seu mais novo ajudante a criar gosto pelo vestuário: um de seus netos tenta costurar com ele e talvez se tornar, no futuro, um dos discípulos do avô.

Quando eu comecei eu fazia as calças pantalona, era boca de sino, foram estreitando mais. O paletó era bem maior, a manga era mais larga”

Valdir Rodrigues

Valdir fala sobre sua habilidade em fazer calças.

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O ofício de alfaiate

Fotos: Willame Alves

Vídeos: Igor Aguiar

©2023 por Alfaiates de Imperatriz. Criado com Wix.com

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