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Floriano Nascimento

“Trabalho há 55 anos nessa profissão, experiência aqui não preciso mais”

A Alfaiataria Pará, localizada na rua Coriolano Milhomem, centro de Imperatriz (MA), foi uma das concorrentes da extinta Agulha de Ouro. Com um quadro de funcionários reduzido depois da grande onda de Covid-19, Floriano Nascimento Silva trabalha agora apenas com quatro pessoas. Antes eram sete, porém, no início de tudo, já chegou a ter até mesmo cerca de 12 auxiliares. A estrutura é grande, com uma sala repleta de rolos de tecidos a mostra e muitas sacolas com encomendas. Aos fundos, um grande ateliê com várias máquinas de costura onde os profissionais trabalham a todo vapor.

Durante uma das conversas, uma mulher chegou para ajustar uma camisa de botão para o seu neto e argumentou que não conseguia ninguém que fizesse do jeito que ele gosta. “Mas você nunca foi num alfaiate. Se você tivesse vindo aqui antes eu tinha feito uma camisa pra ele”, disse Floriano. Eles discutiram o tamanho e as medidas do ombro da camisa, que o alfaiate não quis alterar por achar desnecessário. A mulher insistiu, mas os dois chegaram a um acordo e ela aceitou a opinião do profissional. Floriano cobrou R$ 50 pelo serviço, a cliente antecipou R$ 30 e informou que pagaria o restante quando fosse pegar a camisa, três dias depois.

Floriano é bem hiperativo, não para. Anda pelo ateliê ao mesmo tempo que conversa sobre a vida na profissão. Faz anotações, conversa com uma ajudante que fica na recepção, manda mensagem no celular para os clientes buscarem as roupas já prontas, faz algumas ligações, atende no balcão, marca tecidos. Ele tem um humor bem ácido, mas ao mesmo tempo muito divertido. Faz chacota de si mesmo e da própria profissão o tempo todo. Reclama de quase tudo e lamenta não ter parado há muito tempo, pois ultimamente vem acumulando muitos prejuízos. “Eu ganho hoje do que eu já ganhei antes só uns 20%”. 

Foi uma tia costureira que ensinou a Floriano as primeiras pedaladas na máquina, com seus 15 para 16 anos de idade, em Amarante (MA), sua cidade natal. Porém, ele conta que começou a carreira por falta de outras oportunidades. Seu maior sonho era ser engenheiro civil, mas, por não ter condições financeiras suficientes, não conseguiu realizá-lo.

Com mais de 50 anos de experiência, o alfaiate avalia seu trabalho em relação à inflação e aos preços do serviço. Conclui que não consegue acompanhar o ritmo do mercado por conta das reclamações de alguns clientes. “Eu tô defasado, 50% do salário mínimo. Subiu direto e eu fiquei pra trás, não acompanhei”. Floriano cita que quando o Plano Real foi lançado no Brasil, em 1994, ele passou seis anos sem aumentar o valor de seus serviços. Quando fez isso pela primeira vez, as pessoas não gostaram e começaram a reclamar, levando-o a frear os preços. Suas roupas custam R$ 130 uma calça, camisa R$ 120 e R$ 520 um blazer masculino. Ele brinca sobre os preços que cobra. “Pego o nome de ladrão, de careiro, tudo meu é caro”. Conta que uns dias atrás uma mulher foi pedir para fazer três bermudas, mas que se assustou com o preço. “Eu falei que ficava R$ 110. Ela pensou que era só o preço de uma, tomou um susto e pulou pra trás. Não tenho como baixar o preço, porque senão não pago os funcionários”. 











Floriano nunca teve problemas para aprender a profissão. Acha que a camisa é a peça mais fácil para qualquer alfaiate fazer, mas há um tipo de roupa que considera especial. “Paletó é o mais difícil, é uma obra de arte e o povo não valoriza. Pra cortar ele é uma engenharia”.   Certa vez o alfaiate passou três dias lidando com a confecção de um, por ser um trabalho artesanal, todo feito à mão. 

Sua primeira máquina foi a do pedal e Floriano recorda que teve que vender duas vacas para poder comprar o equipamento, entre os anos de 1965 e 1967. Como estava aprendendo com a tia, preferiu adquirir uma própria e ficou cerca de dois anos trabalhando com ela. Ele conta sorridente que brigou com a parente e resolveu sair para trabalhar por si só. O alfaiate não costura mais, ele agora apenas administra a alfaiataria e supervisiona seus funcionários. “Eu trabalho há 55 anos nessa profissão, experiência aqui não preciso mais”.

Mudou-se para Imperatriz sozinho, em fevereiro de 1973, aos 21 anos de idade e apostava em uma nova vida, porém não como alfaiate até então. Ele conta que nunca trabalhou para ninguém, era autônomo e sempre foi seu próprio chefe. No início, como já havia aprendido a cortar cabelo, montou sua própria barbearia e ao mesmo tempo tinha uma loja de aluguel de bicicletas. Mas depois resolveu se dedicar de vez à costura. 

Soube que a alfaiataria Dom João, do senhor João Boêmio, estava à venda, o que fez ele comprar o empreendimento por dois milhões e quinhentos mil cruzeiros com máquinas, empregados e todos os pedidos já em andamento. João Boêmio então fez alguns testes com Floriano para saber se realmente ele sabia costurar. O mestre não gostou de seu corte à primeira vista e resolveu ensinar todos os segredos para Floriano. Porém, o negócio não vingou por muito tempo e, cerca de seis meses depois, comprou a atual alfaiataria de um paraense que estava indo embora. Lembra que pagou bem mais caro, cerca de quatro milhões de cruzeiros e desde aí nunca mudou o nome do estabelecimento, que continua o mesmo.

Ele é um dos poucos que ainda sobrevive de roupas feitas do zero: as encomendas neste estágio são ainda maiores do que as dos consertos e ajustes. Possui um bom acervo de tecidos de diferentes tipos. Conta que já perdeu bastante dinheiro por muitas pessoas esquecerem ou mesmo não irem pegar as roupas que mandam fazer. “Tem milhares de roupas perdidas aí. Agora, de uns três anos pra cá, eu comecei a segurar com entrada. Tenho uns cinco ternos perdidos, ficava atrás do freguês, mas não aparecia”.

Em um dos momentos da conversa, Floriano pede para deixar bem registrada sua opinião a respeito da perda de prestígio de sua profissão, a que ele atribui como principal motivo a ascensão da indústria. “Nós tivemos um momento difícil, foi na transformação, no início que começou a entrar a confecção. Foi quando a alfaiataria foi acabando, isso há 30 e poucos anos.” Ele explica que no início os serviços de confecção eram chamados pelos alfaiates de “carregação”, por serem mal feitos e por não apresentarem um bom acabamento.

No período do auge da pandemia sua alfaiataria chegou a ficar fechada totalmente por mais de dois meses. Vendeu alguns tecidos para a fabricação de máscaras de proteção bem abaixo do preço para tentar ganhar algum dinheiro. “Pano de R$ 30 eu vendia por R$ 15 e de R$ 25 vendia por R$ 10. Eu caí no mínimo, cerca de 70% a 80%”.

Os muitos anos na profissão acarretaram alguns distúrbios na visão de Floriano. Ele tem um problema de catarata e precisa fazer uma cirurgia. Também sente muitas dores na coluna, principalmente quando dirige, por conta das más posições que tinha que manter quando costurava na máquina. Ele mostra algumas fichas com as medidas dos clientes e com seus dados, onde anota tudo para não fazer a costura errada, além dos contatos e prazos de entregas. Durante a conversa faz uma espécie de triagem para saber se todos já receberam os pedidos. Pede para sua ajudante conferir algumas, já que não consegue enxergar bem as letras.

Sobre a mesa ele corta um short, reclama que o design é ruim, não está criando forma e que está achando dificuldade para ajustar. Enquanto trabalha, afirma que o pior tecido para se costurar é o musseline e que jamais costura malha, pois suas roupas são de corte fino e feitas sob medida. “Só trabalho desenhando, eu trabalho com medidas, nem pego em moldes”, afirma Floriano. Ele explica que a indústria é quem trabalha com moldes e já tem numerações criadas a fim de vender. “Por que a roupa sob medida é boa? Porque ela é o corpo da pessoa. Eu posso cortar uma camisa número quatro e a barriga dela é um número dois, as fábricas não pensam nisso”. 

Floriano quer se aposentar um dia, mas ainda não estima quando. “Qualquer alfaiataria ou indústria tá precisando de gente pra trabalhar. A profissão acabou porque não tem ninguém aprendendo, não tem mão de obra”. Ele deixa bem claro que não ensina ninguém, mas que apoia os novos talentos que desejam fazer da profissão uma vida de trabalho.

Por que a roupa sob medida é boa? Porque ela é o corpo da pessoa. Eu posso cortar uma camisa número quatro e a barriga dela é um número dois, as fábricas não pensam nisso”

Floriano Nascimento

Floriano explica o motivo da alfaiataria ter entrado em crise.

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O ofício de alfaiate

Acervo Pessoal

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Antiga alfaiataria de Floriano Nascimento nos anos de 1970

Fotos: Michaell Sousa

Vídeos: Michaell Sousa

Ateliê da alfaiataria do seu Floriano.

©2023 por Alfaiates de Imperatriz. Criado com Wix.com

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