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Sentado em um banco em frente a uma mesa grande de costura, gomando algumas golas de camisas com o ferro de passar, seu Brasília, apelido de Deusamar Lopes Matias, é bastante calmo e tranquilo enquanto faz seu trabalho e conta sua história de vida. Há 22 anos ele chega todas as manhãs bem cedo na sua alfaiataria, localizada na avenida Bernardo Sayão, em Imperatriz (MA), onde passa boa parte de seu tempo. Não há fachada na frente do estabelecimento, seu nome é forte o suficiente para todos reconhecerem uma das mais tradicionais alfaiatarias da cidade.
Sincero, seu Brasília diz não mais costurar como antes, quando começou aos 18 anos. Hoje, com 66, executa apenas pequenos trabalhos manuais e alguns cortes, enquanto suas ajudantes completam a maior parte do serviço. O local não é tão amplo, há duas salas separadas por uma parede. Em uma delas ficam três máquinas, e, na outra, as araras e a mesa de costura. Aos fundos da alfaiataria, seu Brasília possui uma minifábrica, onde confecciona e fornece camisas sociais para várias cidades do Maranhão e vende também algumas no seu estabelecimento. Ao mesmo tempo que mantém esse serviço, ele critica o fato de a profissão ter ficado defasada por conta da industrialização. “Não tinha essas fábricas pra fazer esse tanto de roupa, não. Depois foi ficando ruim por causa disso”, pontua o veterano sobre a escassa demanda. Os serviços agora se resumem a reparos e consertos, os pedidos para se fazer uma roupa completa são cada vez mais raros.
A todo instante chega alguém ou para olhar as roupas à mostra nas araras ou para arrumar algo. Uma mulher passa procurando uma camisa preta para o marido. Ela olha, escolhe uma, faz o pagamento no pix e vai embora contente com a compra. Uma outra pergunta ao alfaiate se tem camisas infantis para seu filho. Ele responde que sim, mas essa não levou e disse que voltaria depois. Em outro momento, um homem chega para colocar um zíper numa calça e questiona se pode pagar o serviço logo. Seu Brasília reflete: “Tem um ditado que diz assim ‘Quem paga adiantado fica livre e outros dizem que quem paga adiantado merece ser enganado’, mas aqui o negócio não é assim não”. Assim ele demonstra seu bom humor, seu senso e sua personalidade gentil e justa com os clientes.
Nasceu na cidade de Barra do Corda (MA) em 1956 e a vida sofrida e pacata no interior lhe fizeram sair Brasil adentro tentar uma vida melhor. “Nessa época eram três profissões: alfaiate, carpinteiro e motorista. Tinha que aprender essas profissões, senão, quando chegasse na cidade, não trabalhava”, comenta o alfaiate. O apelido Brasília se deu exatamente por conta de seu destino inicial ter sido a capital do Brasil, no ano de 1974. Lá viveu por cinco anos trabalhando muito para abrir sua primeira alfaiataria. Mas ele faz uma revelação bem franca. “Eu gostava de beber, de namorar, era na farra o dia todo”.
Assume ter perdido muito dinheiro quando mais jovem. Seu Brasília levava então ao pé da letra, os conselhos do seu pai: “Meu filho, o homem quando tem de 15 a 25 anos, ele tem que fazer tudo, porque depois você quer construir uma família, a tendencia é isso tudo passar”, conta, ainda passando o ferro nas golas. Ele se delicia ao relembrar as várias passagens de sua vida pessoal e percebe por um certo instante que a conversa vai tomando outros rumos. “Tô conversando demais, não tamo mais nem falando na profissão”, diz. Porém, ele segue contando sua trajetória calmamente.
Sua experiência na costura começou ainda na casa dos pais. A mãe era costureira de longa data e o irmão mais velho também já havia aprendido os dotes da costura. Mas foi em 1974, na cidade de Paraibano (MA), que seu Brasília recebeu ensinamentos de um senhor chamado Luizinho Pernambucano e teve as primeiras noções do ofício. O veterano conta de forma bem humilde que seu pai vendeu uma vaca para poder pagar os dias de aprendizagem na alfaiataria.
Logo depois da fase de aprendizado, começou a fazer calças para alguns colegas e resolveu entrar de vez no ramo da costura. Voltando a Imperatriz em 1980 e deixando seu negócio em Brasília aos cuidados de um amigo, conseguiu uma oportunidade de emprego na Alfaiataria Pará, umas das mais conhecidas da cidade.
Ele revela que antes de se tornar um grande alfaiate tentou se aventurar em outras ocupações, como sanfoneiro. Seu Brasília canta discretamente uma parte da música “Asa Branca”, de Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, enquanto relembra essa fase. Porém, diz que não vingou porque via que todos estavam se divertindo mais que ele, enquanto ficava apenas tocando vendo os outros dançarem. Ainda jovem, foi para o estado do Pará, no dia 9 de junho de 1980, trabalhar na tão famosa Serra Pelada, à procura de ouro. Ficou indo e voltando por três anos, tentando se adaptar à vida desgastante que mantinha por lá. Porém, não obteve muito sucesso e resolveu se dedicar exclusivamente à costura em Imperatriz.
Com seus quase 50 anos de profissão, seu Brasília já se sente cansado e sem paciência para voltar a ter a mesma rotina de antes. No início chegava a acordar por volta das 4 horas da manhã para costurar para dar conta da entrega de todos os pedidos. Apesar disso, ele sustenta o pensamento de aprendizagem constante. “Na verdade, essa profissão a gente nunca termina de aprender, sempre tem coisa nova. Já fiz tanta roupa que hoje eu não tenho mais cabeça”, comenta, ao mesmo tempo que explica como montar as partes de uma camisa.
Os muitos anos de atividade de alfaiate lhe trouxeram alguns problemas na visão. Seu Brasília já passou por três cirurgias no olho para tratar um sangramento. Ele afirma que demorou o tratamento por não se importar muito com isso e nem ter dinheiro suficiente. Mas essa postura trouxe algumas consequências, como a dificuldade em colocar a linha na agulha, o que o obriga a deixar sempre os óculos de lado. Numa das visitas, ele tentou várias vezes o simples ato, sem sucesso. Pediu ajuda para seguir costurando.
O alfaiate é definitivamente bastante conhecido na cidade. Vez ou outra passa alguém na porta acenando ou chamando pelo seu nome. Sobre a aposentadoria, confessa: “Hoje eu tô precisando me aposentar, tô sem paciência. Antes eu era até contra isso, eu pensava que esse tempo não ia chegar”. Quando mais jovem, seu Brasília aceitava empregos até sem carteira assinada e tinha uma sagacidade bem forte. “A gente trabalhava disputando, fazia quatro a cinco calças num dia”, relembra a época que costurava ao lado de outros colegas. Em uma descrição precisa, afirma que alguns desses profissionais são melhores para fazer algumas peças que outras. “Tem alfaiate que é bom pra fazer camisa, mas não é bom pra fazer calça”.
Mas seu Brasília tem um arrependimento bem forte. Sua alfaiataria já esteve em vários endereços e apesar da longa trajetória, ele nunca teve um ponto para chamar de seu. Paga aluguel até hoje pra manter seu ofício vivo. “Na época eu não tinha o dinheiro. Tinha um certo valor, mas preferi comprar um carro pra levar meus filhos pra escola”.
Sobre o futuro, o alfaiate acredita que o ofício irá acabar por mais que goste do que faz. “Eu não recomendaria pra ninguém essa profissão, porque hoje não tem mais valor”. Ele compara os valores de ternos. Antes, custavam um salário mínimo e, nos dias atuais, bem menos. “Hoje o preço é outro, tenho uma tabela, mas cada alfaiate tem um preço”, comenta, informando ainda que suas peças de roupas saem a partir de R$ 70 ou R$ 80.
Mesmo assim, ele se diz bem feliz e realizado com a profissão, sempre gostou do que faz. Conseguiu criar os filhos, comprar sua casa e um carro e manter uma vida estável ao lado de sua esposa, que também sempre esteve ao seu lado durante toda a jornada.
Já no fim da manhã, ao meio-dia, ele está preparado para encerrar o primeiro expediente. Mas chega uma cliente com seu filho, procurando uma camisa social. Ela entra na alfaiataria, pega uma e pergunta: “Tá quanto?” Seu Brasília prontamente ergue a cabeça e responde: “Tá quarenta, 40 reais, vamos comprar a camisa pro rapaz?!” A mulher pede um desconto com certa vergonha. Ele, meio sem graça, diz que já está incluído. Mesmo assim, aceita que, “para ela”, vai deixar a peça por R$ 35. Seu Brasília levanta devagar e vai atender a última cliente do dia.
Não tinha essas fábricas pra fazer esse tanto de roupa, não. Depois foi ficando ruim por causa disso”
Seu Brasília
Brasília comenta sobre os feitios de roupa através do tempo.
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O ofício de alfaiate
Fotos: Michaell Sousa
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