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É num pequeno espaço, um pouco estreito e abafado, que Claudines Vieira de Sousa trabalha de segunda a sábado, das 8h às 18h. Ele percorre um trajeto de moto de aproximadamente 15 km da cidade de João Lisboa (MA), onde mora, até sua alfaiataria localizada na avenida Getúlio Vargas, no centro de Imperatriz (MA). Na fachada alaranjada com letras brancas há um slogan que define bem seu estabelecimento: “Alfaiataria Ágape! Alta costura em consertos e fabricação”. Sobre a mesa de costura, o alfaiate corta peças de uma calça feminina com uma tesoura afiada enquanto relembra sua vida na profissão.
“Eu comecei a costurar com 16 anos, hoje eu tô com 36”, afirma Claudines, que tem um jeito meio tímido e que tenta buscar as melhores palavras enquanto fala. Mas é bastante atencioso e atento às lembranças de quando decidiu montar seu próprio negócio. Desejo que nutria há muito tempo, pois antes já havia trabalhado em outras alfaiatarias de Imperatriz. Hoje, com cinco máquinas de costura, faz todo tipo de serviço, em sua maioria consertos ou ajustes. A primeira que comprou foi uma Reta industrial. “Pra mim era um sonho, eu pensava que nunca conseguiria comprar uma máquina dessa, foi uma realização grande”, reflete, recordando que o equipamento saiu bem caro. Claudines afirma que hoje a oferta de roupa é bem variada e fazer uma vestimenta sob medida demanda tempo de ambas as partes. “A pessoa vai ter que comprar o tecido, tirar as medidas, esperar um tempo. O mundo tá vivendo uma correria. O que a pessoa quer é praticidade e agilidade”.
Nascido na cidade de Buriti do Tocantins (TO), morou em Imperatriz por 10 anos, mas foi em João Lisboa que tudo começou. Na adolescência trabalhava em uma chácara de um dono de uma fábrica de roupas e certo dia foi convidado para aprender a costurar no local. Inclusive não havia nada de alfaiataria, era tudo industrial. Claudines, com seus tímidos 16 anos de idade, não tinha noção alguma de costura, mas faz uma revelação. “Devido eu ser o mais novo da turma, não deram muita credibilidade pra mim, mas fui o que aprendeu mais rápido. Com seis meses eu já sabia fazer uma peça toda de roupa”. Ele lembra que os outros colegas executavam apenas o que eram as suas funções na fábrica: algumas partes das roupas como mangas ou pregar botões. Enquanto isso, ele tirava o tempo de almoço para aprender muito além.
No auge da Covid-19, quando o mundo parou, o alfaiate enfrentou um momento financeiro difícil e teve que vender sua moto para poder pagar as contas. Claudines ainda tentou se aventurar na fabricação de máscaras de proteção, mas o lucro foi mínimo. Mesmo com os obstáculos dessa época, nunca perdeu as esperanças ou quis interromper seu ofício. “Eu gosto do que eu faço e não pretendo mais sair dessa profissão.”
Ele comenta uma curiosidade. Apesar de ser alfaiate, seu público em maioria são mulheres. “Os homens são poucos, 60% a 70% do meu público é feminino. Até mesmo a parte de conserto, 80% são mulheres”, informa, enquanto corta o cós de uma calça feminina. Inclusive, ele já fez muitas roupas para sua esposa e filhas.
Claudines relembra um caso de insatisfação que uma cliente teve com seu trabalho quando fez um ajuste em um vestido no período de festas de fim de ano. Diz que fez o reparo como foi pedido pela mulher, mas que esta retornou dias depois, chorando e se queixou que o vestido não entrava mais nela. De forma discreta e educada, o alfaiate confirmou que, visivelmente, a mulher havia ganhado peso por conta das festas. Mas manteve a postura profissional e devolveu o valor completo do vestido à mulher. Porém no dia seguinte conseguiu vender a mesma peça para outra pessoa e assim não ficou no prejuízo.
Sua experiência revela um bom conhecimento sobre as máquinas quando começa a explicar o que cada uma faz. Mostra uma Overlock e informa que esta realiza o acabamento da roupa para não desfiar. Já a Galoneira é específica para costurar malhas e barras de calças e camisas. Claudines costura a calça de crepe que cortava, agora na máquina Reta, a que mais utiliza. Como não tem ajudante, ele tenta manter o equilíbrio nas encomendas para poder entregar tudo no prazo. A calça que está fazendo leva cerca de meio dia para ficar pronta.
Ele é otimista com sua profissão e garante que pretende expandir o negócio, criar um CNPJ e até mesmo contratar mais pessoas para montar uma equipe de trabalho. Mesmo sendo muito positivo, admite que isso não é uma tarefa nada fácil, já que sua profissão não é tão procurada pelos mais jovens e explica o motivo. “As pessoas não querem mais aprender e a profissão vai ficar extinta. A maioria dos jovens querem uma profissão que dê dinheiro rápido e a alfaiataria não vai te deixar rico”. Apesar disso, ele já conseguiu conquistar com o seu trabalho automóvel, casa própria e mantém uma vida estável com a esposa e as duas filhas.
O trabalho na máquina costuma trazer um pouco de cansaço físico. Claudines passa muito tempo nas mesmas posições. Às vezes, tem dores nos ombros e costas, mas que, segundo ele, não lhe fazem tanto mal. E para amenizá-las e também o estresse, como trabalha sozinho, por enquanto, o alfaiate gosta de ouvir música durante o trabalho e sempre abre o YouTube para escutar alguma coisa.
Em outro momento, o alfaiate ajusta as costas de um blazer feminino comentando sobre o preço que é cobrado. Algumas pessoas reclamam do valor do serviço prestado. “Mas na verdade não é caro, eu falo que você tá fazendo um investimento pra se sentir bem”. Ele defende a profissão, que exige muita qualificação, profissionalismo e criatividade. “O alfaiate, digamos, é uma pessoa graduada, formada pra fazer a roupa com mais perfeição e qualidade”.
Admite que não gosta de costurar tecidos muitos leves, como seda e malhas. Prefere os mais encorpados e grossos, como brim, jeans, algodão e tricoline, pois são melhores para se adaptar aos recortes. Claudines lembra da época que desenhava esboços e croquis no começo da carreira. Ele deixou de fazer os desenhos, já que muitas pessoas não pagavam por isso, queriam apenas as roupas prontas. “Às vezes, eu desenhava o modelo, criava e passava um dia pra fazer só uma peça”, conta. Hoje em dia, as roupas feitas do zero por ele custam de R$ 90, uma calça, e camisas de R$ 70 a R$ 80.
Em outro momento de conversa, ele mostra uma nova aquisição: mais uma máquina Reta. Apesar de ter comprado usada, Claudines se orgulha da conquista, pois já visa ter alguém para ajudar no trabalho. “Cada pessoa tem que ter uma Reta pra trabalhar, porque 80% do trabalho é nela. Eu comprei esperando pra quando uma pessoa vir já ter uma”.
Embora ele garanta amar o que faz, afirma que não gosta muito de trabalhar com ajuste de peças íntimas, apesar de existir uma grande demanda. “O pessoal me procura muito. Eu faço, mas não gosto. O tecido é ruim pra trabalhar, às vezes dá mais trabalho que uma peça grande. Até no valor as pessoas querem pagar mais barato, porque a peça é pequena.”
Ainda que atualmente o ramo de alfaiataria não esteja no seu melhor momento, Claudines não perde as esperanças. Ele apoia que novos talentos ingressem no mercado e encoraja os que já estão no trabalho para a continuidade da arte de costurar. “Eu recomendaria. A profissão não vai acabar se você for um bom profissional. Onde você chegar tem como abrir uma alfaiataria e ganhar a vida.”
As pessoas não querem mais aprender e a profissão vai ficar extinta. A maioria dos jovens querem uma profissão que dê dinheiro rápido e a alfaiataria não vai te deixar rico”
Claudines Vieira
Claudines fala do desejo de ampliar sua alfaiataria.
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O ofício de alfaiate
Fotos: Michaell Sousa
Vídeos: Michaell Sousa
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